Assisti ontem na Globo News uma entrevista com Jon Ronson, feita por Jorge Pontual, que está lançando o livro "Humilhado - Como a era da Internet mudou o julgamento público" sobre o bulling na internet e os verdadeiros atos de banditismo praticado pelo tal do politicmenhte correto.
Uma entrevista imperdível.
Vamos ao tema deste post.
Lais de Souza está sendo execrada por ter carregado a tocha olímpica "artificialmente" em pé, sendo uma "cadeirante".
Em artigo na Folha um "cadeirante" chamado Jairo Marques, pelo visto defensor intransigente da "vitimização" plena dos que possuem deficiências, senta a borduna em Laís, apesar de, na chamada de sua coluna estar escrito:
"Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de deficientes e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena."
Fica patente em seu texto sobre o ato da Lais, carregando a tocha olímpica "artificalmente" em pé, que o colunista caga em cima do que escreve.
Não interessa para a causa que uma cadeirante famosa se beneficie de algo que faça com que ela possa "viver de forma plena" a sua vida, se valendo para isso dos avanços tecnológicos que, de alguma forma, possam melhorar a qualidade de vida e a autoestima de quem se vê preso à uma deficiência física.
Na teoria cretina deste "falso" cadeirante, mas ferrenho seguidor da vitimização de ser um cadeirante, não interessa verdadeiramente para a "causa", para o discrursinho de "vítima" das circunstâncias, que Laís se valha do direito de tentar melhorar sua condição de deficiente usando, para isto, os meios que ELA, E MAIS FILHO DA PUTA NENHUM, acham justos.
Jairo Marques classifica a atitude de Lais de Souza como "papagaiada midiática" e se utiliza de razão cretina para justificar seu posicionamento. Diz ele:
Não entendi a razão de a ex-ginasta Lais Souza ter usado para conduzir a tocha olímpica em um dos momentos de sua passagem por São Paulo uma geringonça que faz o povo estropiado das pernas ficar em pé e até dar umas voltinhas.
Ao contrário de me comover, a papagaiada midiática protagonizada pela moça, que rendeu fotografias bonitas, provocou em mim um desconforto e levou o debate da inclusão para um nível de retrocesso que eu pensava já ter sido superado. Ainda não se compreendeu que as pessoas podem viver muito bem em sua condição de cadeirante, de cego, de surdo, de autista, de anão.
Lais, diante da realidade das pessoas com deficiência no Brasil, tem privilégios de magnatas: direito a uma pensão integral paga pelo contribuinte —o que considero justo—, um cuidador atencioso que topa carregar até fogo por ela, acesso a tratamentos supostamente revolucionários nos Estados Unidos e apoio popular irrestrito à evolução de sua condição de tetraplegia.
Duas evidências me chamam especial atenção nesta parte do texto cretino deste estropiado.
- Seu desprezo pelos cadeirantes, inclusive ele próprio, ao classificá-los como "povo estropiado das pernas".
- Uma confissão nojenta de que o que interessa para a causa não é a melhoria das condições de vida buscada pela Laís, mas sua eterna prisão à uma cadeira de rodas.
Jairo Marques não é somente um deficiente físico "estropiado das pernas". Sua deficiência atinge estágios mais abrangentes afetando sua capacidade mental, intelectual e pessoal.
Parou por aí? Claro que não. A deficiência intelectual e mental do estropiado vai mais longe ainda.
Quando Lais desfila em pé, atada por fivelas, olhando para os mortais “malacabados” por cima, mesmo que inconscientemente, ela passa mensagens que não casam com as batalhas da diversidade: “Aqui de cima é bem mais legal”, “Se esforce, que você volta a andar”, “Tudo vale a pena para ser igual aos outros”.
Equipamentos de acessibilidade, como a cadeira de rodas que possibilita ficar em pé com treino e supervisão de especialistas, servem para melhorar enroscos cotidianos de uma deficiência. São úteis para reduzir entraves provocados por perdas, não para substituir uma realidade torta por uma novinha, normal.
Ficar em pé naquele instrumento pode ajudar na circulação do sangue pelo corpo, pode melhorar o equilíbrio, serve para apanhar objetos mais altos e até para fazer pequenos deslocamentos. Tudo isso melhora a qualidade de vida. A meu ver, a cadeira não serve para saracotear diante do público, carregando um símbolo universal, transmitindo nas entrelinhas uma mensagem vã de esperança que mais atrapalha do que agrega.
Andar amarrado em uma máquina não é prioridade para milhares de lesados medulares que perdem movimentos de braços, de pernas e até do pescoço. Avanço bom é aquele, ainda fomentado pela ciência, que vai melhorar a sensibilidade, que poderá retomar funções fisiológicas afetadas, que vai possibilitar que se trabalhe melhor, que se viva em sociedade com mais autonomia e que o relacionamento com o outro tenha menos obstáculos.
A criação de uma identidade respeitada passa pela valorização da condição que se tem —seja ela qual for—, solidifica-se com representações adequadas e afirma-se com protagonismo sem disfarces ou subterfúgios.
De lembrança da tocha, vou guardar a imagem do atleta cadeirante da canoagem Fernando Fernandes, que recebeu de Lais o símbolo e deu a ele a legitimidade da persistência e da ardência da coragem de seguir em frente fazendo, de quebra, um discurso enaltecedor do valor do esporte paraolímpico.
Em tempo: vou descansar a beleza por algumas semanas. Saio em férias! Volto em setembro se Zeus quiser.
Eis aí a visão caolha do politicamente correto e o uso cretino da vitimização de uma condição de deficiente que põe a causa acima de qualquer dose de respeito pelas opções JUSTAS que uma pessoa com deficiência e que possua meios para tal intento possa melhorar sua condição de vida.
Lais deu um exemplo de que sua deficiência não a impede, mesmo que às custas de avanços tecnológicos "artificiais" possa, ela mesma, definir o que é, PARA ELA, melhorar a sua condição de vida.
Esta é uma escolha puramente pessoal de quem vive todas as dificuldades por ser portador de alguma deficiência.
Espero, sinceramente, que as férias do "estropiado mental" Jairo Marques se prolongue por tempo indeterminado.
Boas Férias, estropiço mental.